O mistério da “mão negra”

O comunismo e o nazi-fascismo são irmãos gêmeos. Esses dois movimentos totalitários compartilham uma mesma genealogia: a Primeira Guerra Mundial e o socialismo. Nem Lenin, nem Hitler, nem Mussolini, nem Stalin, nem Trotsky, nem Mao foram nem liberais, nem “gente de direita”. Todos criaram partidos operários.

Para os comunistas a direita não existe; só há “extrema direita”. Eles rechaçam as particularidades, os graus, os matizes e a complexidade das sociedades abertas e da vida em geral. Quando o debate esquenta, seus adversários são “nazistas”, “fascistas” e “para-militares”. Esses epítetos infamantes são uma de suas armas favoritas em seu combate desesperado contra a civilização e a democracia. Esse enfoque é mais um resultado do sociologismo grosseiro do marxismo. No final dos anos 1940, eles submeteram uma terça parte da humanidade mediante a violência e o terror, e enganaram milhões com sua linguagem falsa, sobretudo na Europa, Ásia e América Latina. Hoje, esse império derrubou-se e as gesticulações dos PC (Partidos Comunistas) residuais são vistas como o que são: fraudes, insultos à inteligência. Exceto na Colômbia?

Os que aconselharam o presidente Santos de que lançasse, há algumas semanas, o conto de que havia na Colômbia uma “mão negra de extrema direita”, comparável e tão belicosa quanto à “mão negra” oposta, as FARC, pois ambas querem “frear os avanços do governo, desestabilizar o país e criar uma sensação de caos”, pelo qual ambas devem ser “isoladas e marginalizadas”, como advertiu o presidente Santos em desafortunada dissertação, procuram manipular miseravelmente a opinião pública. A verdadeira extrema direita é algo muito particular: ela odeia o cristianismo e tem o mundo pagão como pano de fundo. A extrema direita é anti-liberal e raivosamente anti-americana, anti-atlantista e anti-construção européia. A extrema direita preconiza o darwinismo social, é anti-elitista, xenófoba e, sobretudo, anti-semita, anti-sionista e anti-Israel.

Onde está essa extrema direita na Colômbia? Quem puder assinalá-la, com dados objetivos, que o faça. Digam onde está, porém provem-no com rigor e sem repetir os clichês que os esquerdistas caviar querem empurrar goela abaixo a seus adversários.

A extrema direita é uma corrente subversiva que milita contra a ordem estabelecida. Ela trata de destruir, pela força e pela propaganda, o sistema democrático, para erigir um regime estatista, anti-jurídico e anti-parlamentar dominado por um chefe providencial, chame-se ele Duce ou Fürer. Este desmantela todo o organismo de representação cidadã, pois nada deve se interpor entre ele e o povo.

A extrema direita não é idêntica, mas se parece muito à extrema esquerda. Ambas combatem o capitalismo, as liberdades democráticas e o Estado de Direito. Ambas detestam a noção de indivíduo e a moral, e estão convencidas de que resolverão todos os problemas e criarão a sociedade “perfeita”. Essas correntes convergem ante certas conjunturas. Os atentados do 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos foram saudados na França com champagne por jovens da Frente Nacional de Jean Marie Le Pen, assim como pelos trotskistas e por Carlos, o “Chacal”, o terrorista islâmico encarcerado. Todos estavam felizes de que “o imperialismo, os sionistas e seus aliados” tivessem sido “golpeados em sua própria casa”.

Stalin ajudou Hitler a conquistar o poder, ao proibir a aliança dos comunistas com os socialistas alemães. Em 1939, Stalin firmou com Hitler o pacto que desatou a Segunda Guerra Mundial. O PCF (Partido Comunista Francês) pediu ao ocupante alemão autorização oficial para distribuir “L’Humanité” desde junho de 1940. Nesse ano foi criado, com ajuda de trotskistas, o Movimento Nacional Revolucionário, que apostou a vitória total da Alemanha. Eles acreditavam na edificação de um “novo socialismo”, “sem judeus, maçons nem jesuítas”. Desorientado pelo ataque surpresa de Hitler à URSS, Stalin conduziu de maneira inepta a guerra contra o fascismo hitleriano. Só o heroísmo do povo e a ajuda do Ocidente salvaram esse país da escravidão.

O comunismo e o nazi-fascismo são irmãos gêmeos. Esses dois movimentos totalitários compartilham uma mesma genealogia: a Primeira Guerra Mundial e o socialismo. Nem Lenin, nem Hitler, nem Mussolini, nem Stalin, nem Trotsky, nem Mao foram nem liberais, nem “gente de direita”. Todos criaram partidos operários. Os crimes desses dois sistemas apresentaram fortes analogias. Os comunistas exterminaram milhões de pessoas em nome da supremacia de uma classe e os nazistas fizeram o mesmo em nome da supremacia de uma raça. Os nazistas diziam o que iam fazer. Os comunistas escondem seu programa. “O comunismo é o nazismo mais a mentira”, escreveu Jean-François Revel.

Os primeiros em teorizar, desde 1849, sobre a “limpeza étnica” e o massacre de raças e de nações inteiras, consideradas “sem futuro”, foram os pais do chamado “socialismo científico”: Marx e Engels.

Na Colômbia não há uma extrema direita. E os para-militares? E as AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia) de Fidel Castaño e Mancuso? E as BACRIM (Bandos Criminosos)? Todos esses bandos cometeram atrocidades idênticas às das FARC. Em sua primeira fase houve uma lógica anti-subversiva e de auto-defesa frente à expansão fariana. Depois, se impôs a lógica mafiosa: varrer as FARC para preservar a negociata narco-traficante, pois estas, desde 1975, queriam impor sua hegemonia não só nas regiões senão ao narco-tráfico. A questão ideológica nunca foi central nesse pleito entre criminosos. De fato, nas bases e entre os chefes e quadros narco-traficantes e para-militares houve e há de tudo, desde liberais “progressistas” (como Pablo Escobar), até filo nazistas (como Lehder), ex-guerrilheiros do M-19 (como Diego Viáfara) e membros das FARC. O “Negro Vladimir”, chefe para-militar que cometeu mais de 800 assassinatos, era um comunista e ex-guerrilheiro das FARC. Esquecemos acaso que Fidel Castaño e Rodrígues Gacha diziam que lutavam “contra o comunismo e a oligarquia”? Hoje essa convergências continuam, sobretudo entre as FARC e as BACRIM. Estas últimas, embora não aspirem a tomar o poder, procuram ter influência local e expandir-se para consolidar seu negócio, mas não têm uma visão particular do mundo. Por isso poucos crêem que esses bandos são extrema direita que o presidente Santos denunciou.

Em compensação, desde há décadas há uma extrema esquerda identificável, intolerante, subversiva, armada, obtusa e cruel que monopoliza o uso da ultra violência contra o povo e contra o Estado constitucional e democrático. Essa gente comete selvagerias todos os dias contra os civis e contra os militares e policiais, e se disfarça de “oposição legítima” que luta contra um “regime opressor”. Essa gente atrai suas redes clandestinas a jovens generosos porém incautos e bajula partidos e sindicatos vermelhos ou rosados da Europa e Estados Unidos, os quais, por cegueira ideológica, não enxergam a verdade.

A esquerda colombiana sempre foi hipócrita ante o tema dos para-militares. Estes são, um dia, de “extrema direita” e, no dia seguinte, não. “Não deve haver negociação com os ‘paras’ pois são criminosos comuns, não delinqüentes políticos”, dizem. Como justificam então sua caracterização inicial? Para ela, em compensação, pode-se sim negociar com as FARC pois são delinqüentes “políticos” de extrema esquerda. Conclusão: o paradigma do mal são os ‘paras’, enquanto que as FARC (o motor de todas as violências da Colômbia atual) são um mal menor.

Na Colômbia não há extrema direita. O que há sim é uma frente não declarada, talvez incipiente e desorganizada, por ora, porém pluralista e cada vez mais vasta contra as FARC. É uma frente anti-comunista pois as FARC são comunistas. É uma frente humanista, legítima e fecunda, onde há várias correntes, que se inscrevem, todas, em um marco legal, liberal-conservadora, religiosa e laica, patriota e cosmopolita, de direita, de centro e inclusive de esquerda. É uma corrente anti-comunista sem relentos extremistas ou “fascistas”. É um anti-comunismo virtuoso, de democratas, de gente que rechaça todas as “alternativas” armadas, a barbárie das FARC e a de organismos tipo AUC ou BACRIM, e que denuncia o narco-tráfico.

É uma frente anti-comunista que cresce ante os horrores que as FARC perpetram todos os dias. Essa frente não é nem “fascista”, nem de “extrema direita”. É o bloco de todos aqueles que pedem que a Colômbia volte a ser um país normal, sem a ameaça permanente que esse bando encarna.

A invenção da “mão negra de extrema direita” foi criada por gente que sabe que esse repúdio é tão grande que gerou não só manifestações maciças contra esses criminosos, senão uma nova liberdade de tom, de palavra e de análise, entre jornalistas, blogueiros, colunistas, estudiosos, ativistas e em uma parte da classe política. Esse espírito cidadão votou duas vezes em Álvaro Uribe, um liberal de centro, e o apoiou sempre. E votou em Juan Manuel Santos pois ele propunha continuar a política de segurança democrática. Esse espírito cidadão, essa revolução intelectual, exige agora a Santos um retorno à via correta, ao combate sem concessões e sem falsos amigos, para pôr fim ao terrorismo, sem o qual a Colômbia não alcançará a prosperidade a que tem direito.

Isso é visto pelas FARC e seus aliados de “avançada” como uma ameaça. Pois suas mentiras e amálgamas são cada vez menos eficazes. As pessoas já não os tragam inteiros. Por isso querem fragilizar, desviar e desmantelar essa frente de rechaço anti-FARC, caluniando-a. Pretendem, além disso, erigir uma censura e aumentar a auto-censura da imprensa para que a batalha de idéias, e a batalha pela informação e pela formação de uma opinião pública mais alerta, colapse e só reste em pé o grupelho folclórico-sangrento das FARC e seus ecos detestáveis nos meios de comunicação, nas universidade e, sobretudo, no aparato judicial.

O totalitarismo mostra suas orelhas não só através da ação armada das FARC. Os ataques ao constitucionalismo colombiano (contra a separação de poderes, pela preeminência do poder judiciário sobre os outros poderes, o menosprezo das garantias processuais, a manipulação de provas, a idéia de que a ideologia vale mais do que a lei e a Constituição, que esta é só uma guia de segunda classe, e que por cima estão umas misteriosas “normas” e umas “doutrinas” e uma “jurisprudência” internacional), avançam todos os dias sem que o governo, nem as elites que o respaldam, reajam contra esse flagelo. Entretanto, o governo de Santos acredita que está lutando com grande eficiência contra as FARC.

Nesse contexto, surgiu a alegação de que havia uma perigosa “extrema direita” que luta contra o governo. Foi uma manobra hábil, temerária, talvez diabólica, pois serve, sobretudo e objetivamente, aos planos de Alfonso Cano de levar a seu apogeu a guerra subversiva, a guerra invisível, destinada a paralisar o Exército desde dentro do Estado. Ao criar um paralelismo entre as atrocidades das FARC e a suposta “extrema direita”, cria-se um efeito de desculpa destas últimas e declara-se tacitamente a guerra à frente civil que rechaça as FARC.

A tática de fazer ver a direita como de extrema direita foi utilizada com êxito por um chefe socialista europeu. Durante seus primeiros sétimos anos, o presidente François Mitterrand favoreceu o auge da extremista Frente Nacional, mediante um mecanismo eleitoral. Depois impôs uma rotina: cada crítica que a direita lhe lançava, cada vez que esta discutia temas como a segurança, a imigração, a educação nacional, a imprensa aliada transformava isso em ato de colaboração, ou quase, com o “fascismo”. Esse truque continua sendo utilizado hoje, embora tenha perdido força.

A segurança democrática demonstrou que a melhor via para desmantelar as FARC é o combate legítimo do Estado e de suas Forças Armadas, com o apoio moral e intelectual da sociedade. A via anterior, bastarda, auspiciada por governos ineptos, que acreditaram que com “conversações de paz” as FARC seriam aplacadas, conduziu ao auge destas e dos para-militares, o que agravou a tragédia nacional. Voltar ao modelo anterior e dividir a sociedade que repudia o terrorismo em todas as suas formas, é prolongar essa agonia.

O genial de quem impulsiona a campanha sobre a existência de uma “mão negra de extrema direita” na Colômbia, é haver posto essa linha na boca do presidente Santos. Ao aceitar essa patifaria, o primeiro mandatário se meteu na fraude. Esperamos que algum dia saia dela.

EDUARDO MACKENZIEMídia sem Máscara

Tradução: Graça Salgueiro

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One Comment to “O mistério da “mão negra””

  1. “Os primeiros em teorizar, desde 1849, sobre a “limpeza étnica” e o massacre de raças e de nações inteiras, consideradas “sem futuro”, foram os pais do chamado “socialismo científico”: Marx e Engels.”

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