A bolsa óleo de peroba

03062013100637jarbasO senador Jarbas Vasconcelos é um político fora de moda. Pertence ao PMDB, mas pensa por si mesmo. Não entrou na barca nacional do Governo Popular S. A., tampouco trocou de partido seguindo ventos eleitorais. Não faz proselitismo com o oprimido, não se ouvem dele bajulações retóricas às minorias. Trata-se de um dinossauro – expulso do paraíso progressista, proscrito pelo império dos coitados. Num país onde as verdades são retificadas desde 2003 (o ano zero), o que esse senhor pernambucano diz soa estranho, quase ininteligível. Mesmo assim, para os antiquados que ainda compreendem o idioma pré-delubiano, vale prestar atenção ao que Jarbas disse alguns dias atrás.

Como se sabe, o Brasil assistiu a um corre-corre às agências da Caixa Econômica Federal, irrigado por um boato de que o programa Bolsa Família seria extinto. O tumulto ocorreu em metade dos Estados da Federação. Um fato muito grave. Como conceber uma manipulação em massa nesse nível? Quem teria o poder de orquestrar tal onda de aflição e temor, varrendo meio território nacional?

Após um princípio de informações desencontradas e teses variadas sobre que tipo de terrorismo estaria por trás do fato, veio a surpresa. Nas investigações, um único dado se revelou concreto: a Caixa Econômica antecipara, inadvertidamente, o pagamento a parte dos beneficiários do Bolsa Família. A Caixa chegou a informar que a antecipação fora feita, no fim de semana de 18 e 19 de maio, para dar vazão à onda de saques provocada pelos boatos. Depois se descobriu que o dinheiro já estava nas contas no dia 17 – portanto, antes do corre-corre.

A Polícia Federal chegou a informar que o boato partira de uma central de telemarketing no Rio. Não apareceu mais nada sobre os donos da tal central, ou sobre os mandantes da operação, ou mesmo sobre que central seria essa. A tese da orquestração do boato começou a virar fantasma – o boato do boato.

Não se esqueça de Jarbas, o dinossauro. Ele já volta.

Logo que foi noticiado o tumulto nas agências da Caixa, o governo popular reagiu com prontidão, do seu jeito. A ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos, apontou os desumanos que haviam engendrado o terror. Segundo ela, a “central de notícias da oposição” era a origem provável dos boatos sobre o fim do Bolsa Família. Em seguida, num discurso de palanque em Pernambuco, a presidente Dilma Rousseff declarou que aqueles boatos eram algo “absurdamente desumano e criminoso”.

Na seqüência da reação humanitária contra os inimigos do governo popular, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o ocorrido era vandalismo de gente do mal. O presidente do PT classificou o fato como terrorismo eleitoral.

O caso era nebuloso. Mas os defensores do povo deram um show de clareza e convicção. Os grandes líderes são assim mesmo, anteveem as coisas. Sabem no escuro onde está o inimigo. Aí, o caso foi ficando mais nebuloso ainda, as provas da cruel manipulação começaram a não aparecer (desta vez, parece estar difícil de inventá-las), o Brasil ficou gaguejando e os grandes líderes foram mudando de assunto.

Foi então que Jarbas Vasconcelos subiu à tribuna do Senado. E disse quem estava por trás do tumulto que vitimara os beneficiários do Bolsa Família: Dilma Rousseff. “E a principal responsável pelo sofrimento dessas pessoas”, afirmou. E Jarbas continuou: “Por uma razão ainda não explicada, a Caixa Econômica Federal antecipou o pagamento do Bolsa Família para parte dos beneficiários, e isso criou um boca a boca sobre o fim do programa. O resultado foi aquele que todos conhecemos”. Para Jarbas, o vilão é o mesmo que estoura as contas públicas, que permite a volta da inflação, que usa as instituições para acomodar militantes: o governo da grande gestora. Ele resumiu seu diagnóstico:

– Quem foi o desumano que cometeu esse crime contra os beneficiários do Bolsa Família? Quem foram os vândalos que ofenderam os pobres? A resposta é simples: o governo do PT e seus gestores aloprados.

E como lidar com o vandalismo progressista de Maria do Rosário, Dilma, Lula e companhia, que sempre surgem como faxineiros de suas próprias lambanças? Jarbas tem a solução: “O PT deveria criar o Bolsa Óleo de Peroba, tamanha é sua cara de pau”. Não é preciso dizer mais nada.

Guilherme Fiuza

Fonte: Revista “Época”

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