O povo não mais conspira com quem o protege

DETE10 SAO PAULO 1892002 CIDADES CASA DE DETENCAO\ COMECA A DEMOLICAO DA CASA DETENCAO COMPLEXO CARANDIRU  APOS TRANSFERENCIA DOS ULTIMOS PRESOS  FOTO EPITACIO PESSOAAEPor Enio Carneiro Nepomuceno

Certa feita, no começo dos anos 90, eu entrei em um quartel da Polícia Militar e vi escrito sobre os umbrais do portão uma frase atribuída a  Nicolau Maquiavel: “O povo conspira com quem o protege”. Não sou fã incondicional do pensador toscano, mas lembro que, na época, pensei que se realmente a sociedade conspirasse com seus protetores em uma conspiração do bem nós poderíamos ter alguma chance contra a violência que já grassava nas grandes cidade e que ceifava diariamente tantas vidas.

A verdade é que a sociedade brasileira não conspira com quem a protege. Sou obrigado a concluir, na verdade, que a nossa sociedade perdeu toda e qualquer capacidade de conspirar em prol de qualquer coisa ou qualquer resposta digna. Ela segue ao léu, sendo guiada e tangida por quem quer que apresente a primeira idéia engraçadinha que pareça mais politicamente correta e soe bem aos ouvidos mais incautos.

Não sou apóstolo do crime e, igual a você, leitor preocupado, repudio assassinatos de qualquer natureza. No entanto, hoje, observei com tristeza a condenação de 23 policiais que participaram da investida contra o presídio do Carandirú no início da década de 90. Foram condenados a 156 anos de prisão pelo assassinato de 13 detentos que estavam entre os cento e tantos mortos no episódio. Explico a minha tristeza.

A referida condenação possui, de fato, pouco efeito prático. Ocorreu mais de 20 anos depois do episódio, ainda está pendente de vários recursos jurisdicionais e não levará ninguém para a cadeia (pelo menos não nessa década). O comandante da operação, o falecido Coronel Ubiratã, passou por uma condenação bem semelhante e, depois de alguns anos foi inocentado pelo Tribunal de Justiça Paulista. Prefiro crer que o mesmo ocorrerá com os seus subordinados, que tão somente cumpriram ordens, e que nenhum destes homens jamais  será preso como se fosse  um marginal.

No entanto, meu caríssimo e revoltado leitor, se o efeito prático da sentença de primeiro grau é irrelevante, o efeito moral é tremendamente nocivo. Hoje, li em diverso meios de imprensa comemorações advindas de entidades de direitos humanos, da anistia internacional e de outras entidades congêneres. A mensagem é mais ou menos a mesma: “O Brasil, finalmente, deu uma resposta aos assassinatos de Carandirú. Vamos analisar essa resposta.

Lembro, antes de mais nada, que todos estes homens, os 23 condenados e os outros policiais que aguardam julgamento, não são bandidos. Eles não acordaram no dia 02 de outubro de 1992, tomaram café da manhã e decidiram ir ao pavilhão 9 do Carandirú para matar aquelas pessoas. Os policiais se deslocaram e invadiram o local por dever de ofício, por ordem do Governador do Estado e de seus superiores hierárquicos. Invadiram o presídio por iniciativa legal do Estado que assumiu plenamente o risco da operação.

Querer reconstituir o que se passou no interior daquele pavilhão, hoje, depois de 20 anos, é algo totalmente despropositado. Ninguém, além dos presos e dos policiais que lá se encontravam por acaso do destino, jamais saberá ao certo o que aconteceu dentro daquelas grades.

Eu, tampouco, ouso especular como se deu aquele triste episódio. Porém, posso opinar, com certa margem de confiança, que condenar soldados policiais os quais, cumprindo ordens e colocando em risco a sua segurança pessoal, ingressaram em um estabelecimento penitenciário rebelado para defender a sociedade a que serviam me parece um contrassenso moral irreparável e um tapa na face dos agentes policiais do país.

Não vou tomar o tempo do ocupado amigo leitor listando a quantidade de homicídios anônimos que ocorreram em São Paulo de 1992 pra cá. Também não vou listar as centenas de policiais que foram assassinados neste mesmo período sem que houvesse qualquer repercussão midiática ou social. Esses discursos já são tão batidos nos noticiários policiais vespertinos que nem conseguem mais repercutir adequadamente em nossa mente nos pondo a refletir sobre o valor de uma vida.

O que eu quero, simplesmente, é chamar a atenção para a realidade social em que vivemos. Temos latrocínios demais; o crack, que se impõe soberano e imbatível diante do Estado; assaltos; sequestros; homicídios; tráfico de entorpecentes, que manipula milhões (de reais e de vidas); além de muita, mas muita corrupção na esfera pública. O que nós não temos são soluções. Não temos rumos, não temos objetivos, perdemos a capacidade de adotar posturas concretas e resolver problemas reais do nosso dia-a-dia de sociedade “moderna”. Estamos paralisados e perplexos, perdendo feio para a violência e para a criminalidade, desde os crimes mais hediondos e cinematográficos aos crimes financeiros sofisticados e limpinhos do colarinho branco. E qual é resposta social do Brasil?

A resposta do Brasil é condenar 23 PMs que, em 1992, cumpriram ordens e participaram da invasão de um presídio dominado por criminosos, matando nessa operação, lamentavelmente, mais de cem pessoas. Problema resolvido, festa na anistia internacional e justiça consumada. Já podemos nos orgulhar e dormir mais tranquilos enquanto esperamos nossos filhos retornarem das festas da madrugada… Que o Anjo da Guarda os proteja. Que Ele proteja a todos nós.

Pobre Brasil, ele vai perder a luta porque não consegue sequer conspirar com quem o protege.

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