Um bode chamado Feliciano

marco-felicianoPor Felipe Melo

Pegue um grupo de pessoas descontentes e ponha numa sala. Depois, ponha um bode junto com eles. O cheiro insuportável do pobre caprino vai multiplicar a indignação dos iracundos concidadãos. Depois de algum tempo torturando-os com a detestável presença do cornudo, remova o bicho, e você verá como, num passe de mágica, o nível de estresse geral atingirá um nível inferior ao registrado no começo. Por quê? Porque todos os motivos originários desapareceram face o bendito (ou maldito) bode. Pelo menos é isso o que a sabedoria popular diz.

Mas e se você não tem um bode à mão, prontinho para ser usado? A solução não é difícil: ponha as barbas de molho, espere o momento mais adequado e, então, fabrique seu próprio bode. É exatamente isso o que temos visto desde março deste ano – um bode fabricado, artificial, projetado minuciosamente para atrair o descontentamento geral e fazer com que as pessoas se esqueçam dos motivos primeiros de sua indignação. E é o bode tem até nome, vejam só: Marco Feliciano.

Desde o momento em que o deputado federal Marco Feliciano (PSC/SP) foi eleito para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, uma grande campanha de perseguição – e, por que não?, também de “caprinização” – que, em virtude de suas proporções e intensidade, parece improvável ser fruto espontâneo da revolta popular. Declarações ditas polêmicas foram relembradas e, a partir de então, uma patrulha ciosíssima tem acompanhado cada milímetro dos passos do parlamentar. Cada jota ou vírgula dito fora da cartilha da patrulha é motivo para uma rasgação coletiva de vestes.

No livro 1984, do escritor-profeta Orwell, os membros do Partido passavam todos os dias por um ritual assombroso chamado Dois Minutos de Ódio: reunidos diante da teletela, as pessoas começavam a assistir a um filme de um discurso de Emmanuel Goldstein, o inimigo público nº 1 do Partido; a reação enérgica de ódio histriônico e delírio coletivo começava instantaneamente, piorando à medida que o vídeo deformava-se, adicionando efeitos visuais escabrosos; nos últimos segundos, já não era mais Goldstein quem figurava na teletela, mas o Grande Irmão, triunfante, glorioso, arrancando cânticos ritualísticos da turba hipnotizada. Se o que estamos vendo contra o deputado Marco Feliciano não é isso, não sei mais o que é.

A despeito de todos os esforços por fazer parecer que isso é apenas uma reação espontânea do povo, algo sadio e mesmo desejável num regime democrático, o que se vê é um ímpeto totalitário – e, portanto, verticalizado – para a supressão de um direito básico: a liberdade de expressão. Particularmente, não concordo com praticamente nenhuma das afirmações do parlamentar. Tenho até mesmo uma inclinação para considerá-lo, sob diversos aspectos, um grande idiota. Mas ele tem o direito de ser idiota. E as outras pessoas têm o direito de achá-lo um idiota – e eu me incluo nesse grupo. Agora, o que não é minimamente aceitável um regime dito democrático é que a minha opinião sobre alguém tenha peso de lei e esse alguém seja criminalizado por suas opiniões.

Algo que se transformou em moda no meio dessa balbúrdia toda é dizer: “Eu sou isso/aquilo/tal/qual e Marco Feliciano não me representa!” Eu não preciso ser nada além de um indivíduo plenamente consciente, em pleno gozo de minhas faculdades mentais, para dizer que Marco Feliciano não me representa. E, a bem da verdade, isso não significa absolutamente nada, muito menos macula necessariamente a legitimidade de sua eleição. Ele não representa ninguém além das pessoas que o elegeram para o seu mandato – democracia representativa, lembram? –, assim como todos os outros 512 parlamentares que compõe a Câmara dos Deputados. Quem me representa ali é o deputado em quem eu votei, e ninguém mais. Se eu sinceramente esperasse que todos os deputados e senadores me representassem, isso seria, para além de qualquer dúvida, atestado de incapacidade mental.

O deputado Marco Feliciano, a bem da verdade, não está “causando” por ser “homofóbico”, racista, contrário a alguma “minoria” ou qualquer coisa nesse sentido. Ele está sofrendo toda essa perseguição porque possui todos os pré-requisitos que a “sociedade civil” – um termo raso para designar um punhado de ONGs e movimentos sociais de caráter revolucionário e viés totalitário – e a mídia secular adoram demonizar: é declaradamente cristão e não teme em emitir opiniões não corroboradas pela cartilha do politicamente correto. Adicione a isso um pouco de malícia jornalística aqui, uns revoltados histéricos ali, dois ou três artistas decadentes em busca da primeira polêmica para voltarem às boas com a opinião pública, e pronto, está montado o bode.

Schopenhauer, em seu pequeno tratado de erística, ajuda-nos a entender ainda melhor esse fenômeno:

O que se chama opinião geral reduz-se, para sermos precisos, à opinião de duas ou três pessoas; e ficaríamos convencidos disto se pudéssemos ver a maneira como nasce tal opinião universalmente válida. Então descobriríamos que, num primeiro momento, foram dois ou três que pela primeira vez as assumiram e apresentaram ou afirmaram e que os outros foram tão benevolentes com eles que acreditaram que as haviam examinado a fundo; prejulgando a competência destes, outros aceitaram igualmente essa opinião e nestes acreditaram por sua vez muitos outros a quem a preguiça mental impelia a crer de um golpe antes que tivessem o trabalho de examinar as coisas com rigor. Assim crescem dia após dia o número de tais seguidores preguiçosos e crédulos.” (SCHOPENHAUER, Arthur. Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997. pp. 169-170)

O filósofo diz, ao fim de seu raciocínio, que “são muito poucos os que podem pensar, mas todos querem ter opiniões. E que outra coisa lhes resta senão tomá-las de outros em lugar de formá-las por conta própria?” Diante de tudo o que tem acontecido em torno do deputado Marco Feliciano, o bode nacional da vez, parece que essa pergunta continuará sem resposta.

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