Apostolado do Bom Gosto

0924da620c8b29b91f9b94de0877f75ePor Rafael de Mesquita Diehl

Passei a maior parte de minha infância na cidade de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. Lá, havia a Igreja Matriz de Santo Antônio, na quadra em frente à quadra do edifício residencial em que eu morava. Era uma belíssima construção com estilo de inspiração neoclássica, com pinturas retratando cenas da vida de Cristo e de Santo Antônio de Lisboa (ou de Pádua, como preferirem), tendo próximo à porta um crucifixo esculpido em gesso, onde frequentemente podíamos notar uma flor nos pés, oferecida por algum transeunte devoto. Na abside, uma cena de Santo Antônio sendo levado aos Céus . Ao sairmos, topávamos com a edificante imagem da morte do justo e da morte do pecador, uma em cada porta da igreja. A beleza daquele local sagrado me atraía profundamente, sendo este fato que me movia a querer ir assistir a Missa aos Domingos.

Enquanto o padre proferia sua homilia, detinha-me a admirar as belas imagens do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora das Graças nos altares laterais. Enfim, na volta para casa, tentava desenhar as imagens que tinha visto e foi assim que tive meu primeiro forte interesse pela religião. Era muito criança para lembrar com exatidão das palavras que eram lidas e proferidas, mas a eloquência daquela sacra beleza ficou gravada em minha mente.

A simplicidade das mentes que ainda não foram infectadas por avalanches de cultura de massas ou verborragias de ideologias excessivamente abstratas e desconectadas da natureza das coisas sabem reconhecer a beleza que fala na profundidade de seu silêncio. É preciso antes frisar que Beleza não tem nada a ver com futilidade, mas é um valor importante e necessário ao ser humano. Não podemos ser esteticitas que, nos dizeres do filósofo Dietrich von Hildebrand, apreciam as coisas belas como quem aprecia um vinho. A Beleza é um valor que está intrinsecamente ligado ao Bem e à Verdade. Logo, tem aspectos objetivos. Mas também a sua expressão diz respeito aos sentimentos humanos, tendo também um lado subjetivo que explica a diversidade de estilos. A questão é que a Beleza deve ser uma via para nos falar das verdades elevadas sobre a Natureza Humana e sobre Deus. Por isso, a arte nunca poderá ser um fim em si mesmo, especialmente tratando-se de Arte Sacra. Seria mais apropriado dizermos que a arte tem uma finalidade, ao invés de dizermos que tem uma função, dado a carga pesadamente pragmatista e utilitarista que esse termo assume nos tempos hodiernos.

No final do ano passado, várias pessoas divulgaram nas redes sociais um documentário da BBC, disponível no youtube, intitulado Why Beauty metters? – “Por quê a Beleza importa?”. Nesse documentário, o filósofo britânico Roger Scruton mostrava como ao perder o senso de Beleza (motivados pela lógica consumista, pela banalização da massificação cultural e pelo desejo de chocar apenas por chocar), o ser humano estava produzindo obras feias destinadas ao paulatino abandono ou transformação em lixo, ao mesmo tempo em que vai perdia o próprio sentido e significado de sua vida. Como exemplo, Scruton mostra construções destituídas de qualquer referencial arquitetônico, meros blocos gigantes, que acabam sendo abandonados: construídos pensando somente no uso pragmático, acabam tornando-se destituídas de qualquer função ou uso. Outro exemplo são as obras de arte feitas para chocar, que pensam em exposições como se fossem propagandas de mensagem instantânea, mas que não transmitem mensagem alguma exceto ojeriza ou confusão.

Uma arte que busque uma mensagem objetiva, que siga determinadas regras é elitista? Muito pelo contrário: a arte subjetivista é que se torna elitista dado que trabalha somente em referenciais de mensagens subjetivas, acessíveis a um grupo seleto de iluminados, tornado o público comum mero leigo.  Enfim, toda essa delonga serve para mostrar que as ideologias por um lado e o desejo de aparecer e chocar por outro, tornaram a arte feia e estéril, minando e distorcendo o senso de Beleza no ser humano. E essa falta de senso de Beleza revela igualmente uma humanidade descrente, sem saber onde buscar sentidos e significados para a sua vida e o mundo que a cerca, tornando-se presa fácil dos vícios ou deixando-se levar pela inércia das massas. Não sou muito versado em literatura tendo sempre preferido as artes visuais e desconheço o contexto exato em que a frase “A Beleza salvará o mundo” aparece nas obras de Dostoievsky.  Contudo, penso que esse princípio pode ser aplicado ao nosso contexto, se pensarmos na recuperação do sendo de Beleza como parte de nosso Apostolado. Não uma Beleza esteticista que nos conduza a uma ótica hedonista e de fuga do sofrimento e do sacrifício. Mas aquela Beleza como a da crucifixão de Cristo de Mathias Grünewald, capaz de mostrar a Beleza do sacrifício, dando o correto sentido ao sofrimento, possibilitando aos sofridos doentes que passavam por aquele convento identificarem as suas dores com as dores do próprio Deus feito carne pela nossa redenção. Urge que busquemos conhecer a beleza produzida por séculos de arte comprometida com valores e uma concepção transcendente da vida humana e a divulguemos a fim de que a Beleza se espalhe como perfume para conter o odor pestilento de feiura e valores contrários à Dignidade Humana que tem infestado nossos ambientes.

* Mestrando em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

http://civilitaschristiana.blogspot.com

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