Sobre o debate “A Dialética da Secularização Revisitada”, entre José Arthur Giannotti e Henrique Elfes

Por Marcus Boeira

Na noite desta quarta-feira, dia 21 de novembro de 2012, a faculdade de Ciência Política da USP recebeu duas personalidades de inclinações intelectuais bastante diferentes para um debate sobre Religião, Razão e Estado Secular: José Arthur Giannotti, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e Henrique Elfes, co-fundador do Instituto de Formação e Educação (IFE) e editor da revista Dicta e Contradicta. O título que imprimia o selo do confronto era A Dialética da Secularização Revisitada: Razão, Religião e Estado Secular, uma alusão clara ao diálogo ocorrido em janeiro de 2004 entre Jürgen Habermas e o então Cardeal Joseph Ratzinger (Para Bento XVI), a respeito das bases pré-morais e políticas do Estado democrático na modernidade.

Giannotti começou tecendo considerações a respeito da posição habermasiana acerca da racionalidade na teoria comunicativa e deliberativa, demonstrando sua discordância quanto aos pressupostos de Habermas acerca do fundamento do Estado e da política em geral. Inclusive, chocou boa parte da platéia quando declarou concordar mais com Ratzinger do que com o próprio Habermas, a quem demonstrou aversão quanto ao postulado do reconhecimento da racionalidade na sociedade moderna. Atacou de forma veemente a noção de uma racionalidade capaz de decifrar aspectos e dados objetivos da realidade, afirmando a inexistência de padrões inteligíveis que possam oferecer ao agente dados conclusivos sobre o que quer que seja. Já em meio às perguntas e ao debate junto à platéia, afirmou categoricamente que não há uma razão, mas várias, além de categorizar que a política não é um espaço submetido a racionalidade, mas a mera luta de forças contrapostas. A razão, disse o professor, parafraseando Lutero, é uma prostituta. A política se resume ao decisionismo, a luta por espaços e territórios, a busca pela hegemonia, nos moldes gramscianos.

Como contraponto, Elfes começou dissertando sobre os auspícios da racionalidade ocidental a partir da noção medieval da sociedade. Afirmou que a sociedade medieval, dividida em duas espadas, máxima inspirada no ideal da separação entre autoridade espiritual e pode temporal, pressupunha uma divisão entre a sociedade espiritual, governada pelo Papa, e a sociedade política, coroada pela pessoa do Rei. Papa e Rei, nessa acepção, seriam os representantes de Cristo na terra. Porém, a divisão, ao invés que favorecer o equilíbrio entre as duas esferas, acabou por transferir o pêndulo de forças para a comunidade eclesiástica, estabelecendo um enfraquecimento da sociedade temporal na cultura cristã de então. O cenário aí presente favoreceu um progressivo ressentimento laical, gerando nos leigos uma aversão cada vez maior à sociedade eclesiástica. Foi justamente tal ressentimento que gerou o secularismo. Suas raízes medievais, mutatis mutandis, foram produzidas em um contexto sócio-cultural em que a sociedade leiga via-se cada vez mais distante dos centros catalisadores internos da Igreja. Frente ao forte clericalismo, culminado no auge da Idade Média, o secularismo entrou em cena.

Além disso, Elfes também destacou os três pontos salientes da história ocidental, em razão do privilégio cultural dado a cada um dos pontos seguintes em tempos sucessivos: o homem, o mundo e a modernidade líquida, em referência direta a obra de Zygmunt Bauman, neste último ponto. Ou seja, a sociedade atual é gelatinosa, fluida, composta por antagonismos de posições e por valores diluídos. E o meio para se chegar ao consenso e a produção de direitos e responsabilidades é a razão. Por fim, destacou a importância da racionalidade no contexto social e político, sem a qual a diluição de valores torna-se cada vez mais presente, além de potencializar a intolerância. Apoiado nas posições do Papa Bento XVI, Elfes assegurou a tese de que é a razão secular quem deve fundamentar a política. A racionalidade deve conduzir os assuntos públicos para a paz e a tolerância.

Embora o debate entre Habermas e Ratzinger tenha sido o foco chamativo do evento, os dois debatedores não se prenderam aos pressupostos elucidados na disputa, voltando cada qual a atenção para pontos que entendiam relevantes. Gianotti, por exemplo, reagiu as perguntas da platéia com a utilização excessiva de citações de filósofos, sem, no entanto, descer aos pormenores do que os mesmos tenham de fato dito a respeito dos aspectos que comentava. Citou Kant, Hegel e Husserl. Todavia, não demonstrou o que cada qual dissera acerca do que defendia. Além disso, usou de formas erísticas de discurso, e muitos argumentos de autoridade, para não responder às perguntas que lhe foram dirigidas.

Durante a palestra, fez uso invertebrado de argumentos desconexos, apoiados em premissas que, não raras vezes, se contradiziam. Por exemplo: afirmou que a tolerância é desejável. Que a política é o espaço para a tolerância, mas que, pari passu, é um espaço de luta, conflito e hegemonia. Demonstrou forte inspiração em Marx e Gramsci. Porém, quando indagado sobre a busca da tolerância pela política, disse tratar-se de um assunto estratégico, não racional, que as circunstâncias ora favoráveis, ora desfavoráveis do ponto de vista estratégico são as únicas vias para se atingir a tolerância. Porém, negou o papel da razão nesse processo, dizendo tratar-se de um problema de hegemonia e luta entre amigos e inimigos, em menção direta a Carl Schmitt. Por fim, utilizou excessivos argumentos baseados em estereótipos para negar a posição da razão no contexto moderno, dizendo que a sociedade atual possui inúmeras facetas contraditórias e que é impossível decifrar a razão nesse contexto.

Eu mesmo, insatisfeito com tamanha demonstração de contradições evidentes, fui impelido a lhe perguntar, movido por pura curiosidade, o seguinte:

Dado que a palavra razão possui diversos enquadramentos, como por exemplo, (i) a posição que a razão ocupa no intelecto e na estrutura cognitiva, (ii) a posição que ocupa na teoria do discurso, da argumentação e da linguagem como um todo, (iii) a posição que ocupa nas ciências em geral e na produção de conhecimento, e por fim (iiii) a consideração que se dá à razão na história da filosofia, na tradição filosófica em geral e na cosmovisão ocidental, sob qual ou sob quais dessas perspectivas de análise o senhor ataca a razão? Ataca sob todos ou sob alguns desses quesitos?

A resposta, surpreendente, foi a de que eu lhe jogara a batata quente e que minha pergunta não tinha resposta. Após isso, movido por um acesso de fúria, disparou: você matou a razão, sua pergunta já demonstra ser irracional! A conclusão do professor era latente: se existem muitas acepções para a palavra razão, então não existe razão! Para meu espanto e de alguns presentes que entenderam a pergunta, o choque foi inevitável. Após alguns segundos de restabelecimento de minhas faculdades cognitivas normais, percebi que estava diante de alguém cujo pretexto é o de usar de argumentos de autoridade e, quando não, de recursos erísticos para fugir de temáticas e problemas que lhe são absolutamente estranhos. Frente a isso, só uma saída era-lhe possível: fugir da pergunta com ares de autoridade e fingir desprezar aquilo do qual não entende. Minutos depois, foi novamente submetido ao teste de fogo, perante uma platéia ávida por entender suas justificativas. Afirmou, com “sangue” nas palavras, que a política não era racional, para logo depois cair em outra contradição, dizendo que a política era um misto de racionalidade e irracionalidade. Ora, como pode algo que é irracional ser também racional? A afirmação, embora pareça estúpida, possui uma justificativa sedimentada em sua estrutura cognitiva e ideológica, que o move a pensar assim. É que para o professor, a história e a política são feitas de contradições e o único meio de agir nesse sentido é a praxis que, nos moldes marxistas, supõe a unidade entre o conhecimento e a ação. Em suma, a tolerância não é um fim desejável por si, mas um meio estratégico de obter a hegemonia.

Ficou latente, por outro lado, que o professor Henrique diagnosticou o empenho da Igreja pós-conciliar (Concílio Vaticano II) em assumir publicamente o compromisso com o diálogo em busca da tolerância, algo que só é possível reconhecendo a posição da razão como uma forma de compreender a realidade e o mundo.

O tom das perguntas, as saídas encontradas pelos debatedores, o respeito mútuo entre os interlocutores e a satisfação da platéia demonstrou que o evento foi um sucesso e que seus organizadores, especialmente o Fabio Lacerda, doutorando em Ciência Política na casa e um estudioso de futuro brilhante, conduziram a disputa da forma mais elegante e diligente possível.

Apesar de tudo, o professor Giannotti demonstrou muita simpatia e abertura para um diálogo aberto, sem fronteiras, aclarando suas reais posições sem o subterfúgio da máscara acadêmica. O mesmo fizera o professor Elfes que, sob o guarda-chuva da melhor teologia contemporânea, demonstrou fina racionalidade na defesa da razão secular.

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One Comment to “Sobre o debate “A Dialética da Secularização Revisitada”, entre José Arthur Giannotti e Henrique Elfes”

  1. Infelizmente não presenciei o evento e por isso agradeço o resumo e crítica que você fez. Tal atitude, aliás, é exemplar e deve ser ao máximo incentivada, pois disponibiliza ao público tanto acadêmico como não acadêmico o que se passa dentro dos muros (infelizmente ainda muito altos e farpados) da Universidade. Abraços!

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