Com todo o respeito, mas também com a devida franqueza

Por Bolívar Lamounier

Peço licença para começar por uma obviedade. Eu respeito todos os partidos em atividade, nos termos e nos limites da lei; respeito o voto de cada cidadão e a preferência da maioria. Isso porém não me impede de hoje reiterar certas avaliações que aqui fiz em diversos momentos da campanha eleitoral.

Reitero, em primeiro lugar, que considero nefastas para a política brasileira a visão e as práticas políticas do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, em especial o papel de chefe de facção que ele tem assumido nos pleitos eleitorais, quando o desejável seria que se comportasse com isenção, como faz todo verdadeiro magistrado.

Não é ilegal, mas é a meu ver abominável o uso Lula faz de sua incontestável popularidade para eleger o que alguns designam como “postes” e eu prefiro denominar “paus mandados”.

Neste aspecto, o caso de Fernando Haddad parece-me até mais grave que o de Dilma Rousseff. A presidente, bem ou mal, adquiriu uma certa formação técnica; e teve uma atividade política – equivocada, mas teve. Haddad, pelo que me consta, concluiu o doutorado em política com uma tese típica da logorréia marxista. Como ministro da Educação, foi de uma irretocável mediocridade. Por enquanto, tenho pois o direito de supor que a capacitação para administrar a maior cidade da América do Sul custar-lhe-á muito tempo e esforço. Oxalá eu esteja errado, porque o ônus dessa formação tardia poderá tornar-se um fardo para os estratos sociais mais vulneráveis de nossa cidade.

Sei que o PT possui em seus quadros numerosos profissionais e intelectuais de qualidade, e que uma parcela de seus militantes se esforça por adquirir habilidades técnicas. Fato é, porém- como o julgamento do mensalão está evidenciando-, que o partido também abriga uma proporção de incompetentes, picaretas e inescrupulosos ao que tudo indica sem precedente na história partidária brasileira.

Neste particular, a atitude da “maioria (?) silenciosa” petista constitui para mim um enigma dentro de um mistério (para lembrar a boa expressão de George Kennan). Custa-me compreender por que nem os intelectuais mais expressivos e respeitáveis conseguiram até aqui dizer algo relevante sobre, entre outras, a questão da corrupção, a propensão a recorrer sistematicamente à mentira, o culto temporão de certas ambiguidades marotas a respeito do ordenamento institucional da democracia e, não menos importante, o endeusamento mistificador de Lula como um novo Padim Ciço.

Sabemos todos que a força eleitoral do PT provém, por um lado, de algumas políticas sociais válidas, mas obviamente insuficientes num prazo mais longo, como alavancas para o desenvolvimento econômico e social, por outro, da já referida mistificação da figura de Lula junto ao estrato de menor renda. É uma combinação poderosa.
Por isso mesmo, penso ser indispensável suscitar desde já uma indagação que me parece de suma relevância no médio e no longo prazos.

A condenação e a provável prisão do mentor principal do projeto petista de poder obviamente não significa que tal projeto haja sido suspenso; ao contrário, a estratégia eleitoral de Lula em 2010 e agora em 2012 não deixa margem para dúvida quanto a suas ambições hegemônicas. Entre a escala de tais ambições e a mentalidade do partido há entretanto um abismo.

Não estarei a revelar nenhum segredo se disser que a mentalidade média do PT é pateticamente retrógrada: na economia, um keynesianismo de fundo de quintal e uma aversão que se diria pavloviana a reformas modernizadoras; na administração pública, a elevação do corporativismo à categoria de um dogma sacrossanto; na educação, entre tantos pontos a levantar, lembrarei apenas a arraigada e irresponsável ojeriza do lulopetismo ao princípio do mérito.

Conquanto se trate de uma obviedade, gostaria de retomar aqui, à guisa de conclusão, o que afirmei no início: o meu respeito pela opção eleitoral de cada um dos cidadãos que compõem o eleitorado paulistano. Na democracia é assim, e eu me orgulho de jamais haver tergiversado quanto a este ponto.

Permito-me porém insistir no ponto delineado no parágrafo anterior. Entre o projeto de poder da máquina petista e a preferência majoritária dos estratos de menor renda, entre tudo o que a mentalidade petista contém de retrógrado e a atração que apesar disso o partido vem representando para os cidadãos que compõem esse estrato, há uma contradição anunciada. São dois polos: um ou outro, ou ambos terão de mudar. Oxalá o possam fazer sem transferir o ônus para toda a próxima geraçao.

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