A hidra petista

Como PT nasceu com o “DNA gramsciano” e seu o objetivo final sempre foi estar acima do Estado, seus membros pensam estar além das leis. Por isso, não se sentem na obrigação de defendê-las.

A mitologia grega era riquíssima em personagens. O monstro chamado Hidra possui um corpo de dragão e cabeças de serpente. Os guerreiros que o enfrentavam deparavam-se com uma grande dificuldade: a cada cabeça cortada, logo surgiam duas no lugar.

O guerreiro Hércules foi aquele que venceu a Hidra. Ao invés de tentar decepar as inúmeras cabeças que sempre se multiplicavam, desferiu um ataque fulminante na cabeça principal do monstro, liquidando com um golpe certeiro também as outras cabeças.

A lição da história é clara: certos impasses só são resolvidos atacando diretamente no centro de geração dos problemas. Ataques em zonas periféricas não resolvem: no lugar de uma cabeça cortada, logo nascerá outra tão mortífera como a anterior.

O julgamento da Ação Penal 470, o Mensalão, vem sendo comemorado como uma grande vitória na luta contra a corrupção. De fato, o STF, em sua maioria, vem se posicionando de forma resoluta contra o terrível esquema de compra de votos e eternização no poder por meios ilícitos.

Entretanto, de nada adiantará condenar figuras proeminentes se a “cabeça principal” for mantida intacta. O Judiciário, duro com os atos de corrupção, não ataca o centro do partido que nos governa, corroborando a impressão que o PT quer passar de que tais atos seriam meros desvios dos belos ideais proclamados. Essa tática de se limpar na própria sujeira é antiga.

Leiam o livro ‘New lies for old’ do ex-agente da KGB Anatoliy Golitsyn, sobre os planos de desinformação soviéticos, e entenderão o que se passa no Brasil de hoje.

A verdade é que a origem do Mensalão está na gestação do PT. Ao invés de criar um partido para defender,como alegavam, direitos dos trabalhadores e fazer a necessária pressão sobre os lucros para dividir a prosperidade capitalista, o PT foi criado com a ideia gramsciana de organização.

Um “Partido Príncipe” – que incorporaria a virtu imoral de Maquiavel – deveria crescer, se infiltrar no Estado e dominá-lo até que não haveria diferença entre o que seria o Estado e o que seria o partido. Ou melhor, haveria sim uma grande diferença: o partido estaria acima do Estado.

Uma vez que o Estado decodifica as leis e regulamentos, quem se coloca acima do Estado, por definição, se posiciona acima das leis. Como PT nasceu com o “DNA gramsciano” e seu o objetivo final sempre foi estar acima do Estado, seus membros pensam estar além das leis. Por isso, não se sentem na obrigação de defendê-las.

Ao contrário, o grande impulso é o de justamente transgredi-las até que o partido seja a própria lei. Não é preciso ser gênio para entender que um partido assim não tem a intenção de respeitar a democracia, a alternância de poder ou a separação entre governo e Estado.

Se as lideranças do partido não forem investigadas de nada vai adiantar o julgamento do Mensalão. Não se pode permitir a entrega dos anéis para preservar os dedos.

A não ser que o mal – o “DNA gramsciano” – seja cortado pela raiz, escândalos atrás de escândalos continuaram a ocorrer. E ao lado de cada cabeça petista condenada, duas novas vão surgir, tal como a hidra da mitologia grega.

A corrupção simbolizada pelo Mensalão é apenas o meio para o alcance dos objetivos. Punir os meios e deixar os fins intactos. Essa é a tática para a manutenção da corrupção endêmica. E para destruir a democracia.

 

Publicado no jornal Brasil Econômico.

Rodrigo Sias é economista do Instituto de Economia da UFRJ.

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