Helenismo, decadência e suas relações com o Brasil

Por Alessandro Barreta Garcia

Mestre em Educação

www.alessandrogarcia.org

Com a decomposição da pólis grega, já anunciada pela guerra de Peloponeso abre a possibilidade de Felipe, filho do rei Amintas e pai de Alexandre o grande, desferir uma ofensiva contra os gregos (GIORDANI, 2006 e GARCIA, 2012). Segundo Toynbee (1963) Felipe teria sido educando entre os tebanos e aprendeu muito sobre a cultura grega. Na expectativa de introduzir na Grécia um império universal, Felipe já preparava seu filho no qual tinha aulas com um dos maiores mestres do conhecimento grego, o filósofo Aristóteles.

Em 338 a/C Felipe obteve importante vitória contra os gregos na Queronéia. Com o intuito de introduzir entre os gregos um império universal Felipe contribui para a alteração da categoria de cidadão que passara não só de Cidadão/Soldado para Soldado/profissional como também para súdito. Para Toynbee (1963), Felipe impõe uma unidade e paz entre os gregos. Ainda assim tais mudanças serão significativas e profundas na civilização helênica.

Nesse novo quadro social, o helenismo, ou seja, a difusão da cultura grega para outros povos do oriente representam também a queda efetiva do conceito de cidadania, ou mesmo, seu total desaparecimento. Segundo Giordani (2006): “A Grécia clássica em com ela a pólis desapareceria, de certo modo, do cenário da História para dar lugar a uma nova civilização, a uma nova concepção de vida” (p. 176). Deste modo, o cidadão/soldado já não teria mais espaço nesse ambiente social. Dominante na época, as monarquias abrem espaço a outra categoria: o súdito.

Passado o período da filosofia clássica, Carvalho (2006a) aponta que o desenvolvimento da filosofia sofre grande queda. As escolas filosóficas tais como a de Sócrates, Platão e Aristóteles não apresentam mais um nível de composição das ideias. Apesar disso, no período helenístico é observado um grande avanço estrutural, pois o número de bibliotecas e institutos de ensino é maior Lévêque (1987). Ainda assim, esse aumento foi apenas quantitativo e nada comparado ao florescimento de ideias do período anterior. Como prova do individualismo, o lirismo na época helenística é observado por Carvalho (2006a); Lévêque (1987) e Garcia (2012) como uma espécie de sabedoria pessoal. Na comedia Toynbee (1963) reconhece uma ausência no que se refere ao vinculo com a política como se observava nas comedias da época clássica.

Sem um ambiente democrático, as tragédias envoltas em histórias clássicas dão lugar a uma história individual, tendo ela a problematização do individuo, seus sentimentos e aflições, dignas da nova ordem histórica, uma ordem isolada dos problemas discutidos em grupos e nas assembleias. Nascia uma espécie de autoajuda.

O Brasil vive algo semelhante, pois, apesar do status de democracia, o brasileiro se comporta como um verdadeiro súdito. A sua não participação nas decisões políticas e sociais do país parece confirmar sua característica individualista e notadamente passiva. Nos últimos anos parece ficar claro a ofensiva ideológica para neutralizar a percepção do povo brasileiro.

Para Rodríguez e De Sousa (2006).

Emerge dessas considerações o conceito de “revolução passiva”, onde os principais sujeitos históricos (as classes operárias e os camponeses pobres) são deixados do lado de fora do processo histórico e cooptados pela hegemonia de classes alheias aos seus interesses. Esse processo, como o ocorrido na Itália na época do Rissorgimento, é efetivado, pelas classes dominantes, sem recurso ao terror, na medida em que os de baixo são cooptados passivamente. As classes dominantes utilizam, nesse processo de cooptação dos seus inferiores, os mecanismos que Gramsci denomina de “aparelhos privados de hegemonia”, que consistem na escola, na igreja, nos jornais e nos demais meios de comunicação em geral (RODRÍGUEZ e DE SOUSA, 2006, p. 10).

Para os progressistas que seguem a linha do marxismo gramsciano, o combate ao conservadorismo e as leis constitucionais são intensificadas. Como aponta Rodríguez e De Sousa (2006), é preciso a partir dos intelectuais orgânicos o domínio das massas formando um coletivo que para Carvalho poder ser considerado como o Imbecil Coletivo (CARVALHO, 2006b). A propaganda neste caso é essencial para que os intelectuais orgânicos coloquem em prática o que foi preconizado por Gramsci e pela escola de Frankfurt.

Um dos últimos exemplos dessa busca pela individualização é a legalização do aborto de crianças anencéfalas. Outro exemplo é a enorme venda de livros de autoajuda, uma característica emblemática do período helenístico. A enorme quantidade de grupos sociais, tidos como minorias, pelas quais buscam direitos individuais contrários à constituição brasileira. No Brasil, somos protagonistas de um dos piores níveis educacionais do mundo e um dos maiores níveis de assassinato por ano. Um modelo educacional no qual quer incitar ao anticristo. Esses são alguns exemplos da decomposição brasileira, um verdadeiro período de decadência, individualização e miséria intelectual.

Não obstante, a música brasileira em geral é de péssima qualidade, pois, como não poderia ser diferente, visto que o brasileiro com uma das piores educações do mundo não poderia formar uma classe popular, e até mesmo elitizada, na qual pudesse conseguir distinguir uma música ruim de uma canção harmônica, um livro de autoajuda de um clássico, um filme fundo de quintal de um épico. Que Deus proteja nosso país.

REFERÊNCIAS

CARVALHO, O. Período Helenístico I. Coleção história essencial da filosofia. São Paulo: É Realizações, 2006a.

CARVALHO, O. O imbecilcoletivo: atualidades inculturais brasileiras. São Paulo: É Realizações, 2006b.

GARCIA, A. B. Educação Grega e Jogos Olímpicos: Período Clássico, Helenístico e Romano. Jundiaí, Paco Editorial: 2012.

GIORDANI, M. C. História da Grécia antiguidade clássica I.8.ed. São Paulo:Vozes , 2006.

LÉVÊQUE, P. O Mundo Helenístico. Editora: Edições 70, Lisboa – Portugal, 1987.

RODRÍGUEZ, R. V, E , DE SOUSA, P. S. O marxismo gramsciano: pano de fundo ideológico da reforma educacional petista. Revista Interdisciplinar de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos. Ano I, Nº 1, Juiz de Fora, set.-nov./2006.

TOYNBEE, A. J. Helenismo- história de uma civilização.Rio de Janeiro: Zahar, 1963.

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