Internet, leitura e reflexão

Os adolescentes são fascinados pelas ferramentas da era digital. Eles não desgrudam do celular, vivem digitando mensagens de texto, passam horas escrevendo em blogs, navegando na web ou absortos nos videogames. Mas a dependência da internet não é exclusiva dos adolescentes. Todos nós, jovens e menos jovens, sucumbimos aos apelos do mundo virtual. Eu mesmo já fiz o propósito de não acessar meus e-mails nos fins de semana. Tem sido uma luta. Com vitórias, mas também com derrotas. Para o norte-americano Nicholas Carr, formado em Harvard e autor de livros de tecnologia e administração, a dependência da troca de informações pela internet está empobrecendo nossa cultura.

Segundo Carr, o uso exagerado da internet está reduzindo nossa capacidade de pensar com profundidade: “Você fica pulando de um site para o outro. Recebe várias mensagens ao mesmo tempo. É chamado pelo Twitter, pelo Facebook ou pelo Messenger. Isso desenvolve um novo tipo de intelecto, mais adaptado a lidar com as múltiplas funções simultâneas, mas que está perdendo a capacidade de se concentrar, ler atentamente ou pensar com profundidade”.

A nova geração de adolescentes tem mais acesso à informação do que qualquer outra antes dela. Mas isso não se reflete num ganho cultural. Os índices de leitura e de compreensão de texto vêm caindo desde o início dos anos 1990. A conclusão é de que, apesar do maior acesso às novas tecnologias, não se vê um ganho expressivo em termos de apreensão de conhecimento.

A internet é uma magnífica ferramenta. Mas não deve perder o seu caráter instrumental. O excesso de internet termina em compulsão, um tipo de dependência que já começa a preocupar os especialistas em saúde mental. Usemos a internet, mas tenhamos moderação. Ler é preciso. Jovens, e adultos, precisam investir em leitura e reflexão. Só assim, com discernimento e liberdade, se capacitam para conduzir a aventura da própria vida.

Compartilho com você, amigo leitor, algumas obras. Espero, quem sabe, que o estimulem nas férias deste mês de julho.

Mata! O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia (Editora Companhia das Letras) é o registro rigoroso de um duro período da nossa História. A partir de um perfil biográfico do lendário coronel do Exército Sebastião Rodrigues de Moura, mais conhecido como Major Curió, e da história da guerrilha e de seu extermínio – com base em documentos inéditos e depoimentos de vítimas, testemunhas e protagonistas da repressão militar -, o jornalista Leonencio Nossa, repórter do jornal O Estado de S. Paulo, lança um poderoso facho de luz numa quadra que pretendia permanecer na sombra. A seriedade na apuração e o texto jornalístico, saboroso e leve, dão ao livro o status de referência obrigatória.

What Were They Thinking? (Harvard Business School Press) é o título de um livro de Jeffrey Pfeffer, professor de Stanford e um dos mais renomados gurus da administração na atualidade. No capítulo 3 ele comenta a grata impressão que lhe causou a experiência que teve como professor visitante no Iese de Barcelona, a escola de negócios da Universidade de Navarra (Espanha).

“Bem na época em que saía a versão para o cinema de O Código Da Vinci”, diz Pfeffer, “eu passava umas semanas na Iese Business School, escola de negócios espanhola que figura entre as líderes do mundo. O que eu encontrei lá não foi nem cilícios, nem cadáveres, nem monges albinos: foi great management. Uma escola de grande sucesso. Eu me perguntava o que é que estaria por trás desse sucesso. Descobri que havia pessoas brilhantes, bem preparadas, que poderiam ter condições econômicas mais rentáveis em outros lugares, mas havia algo que as atraía e as mantinha lá: esse algo é caring culture (cultura de atenção, cuidados, serviço às pessoas). Como eu mesmo experimentei. Minha esposa contraiu uma forte dor de ouvido por ter tido de pegar um voo resfriada. O diretor-geral do Iese, Jordi Canals, não teve dúvida: providenciou primeiro uma consulta com um clínico-geral, depois com um famoso especialista em ouvido, destacou uma funcionária de fala inglesa para acompanhar minha esposa, serviço de táxi, pagou tudo e não nos fez nenhuma pergunta. Isso era algo que não estava previsto no contrato de minha estadia no Iese e simplesmente conquistou nossa eterna gratidão. Para Canals, era algo que fazia parte da missão de serviço aos membros da instituição, mesmo que fossem membros temporários, como era o nosso caso”. O livro, carregado de experiências, suscita inúmeras reflexões.

A Igreja das Revoluções (Editora Quadrante, São Paulo) é o último título da História da Igreja de Cristo, a monumental obra de Daniel-Rops. O autor, membro da Academia Francesa de Letras, estava trabalhando no 11.º, que trataria do Concílio Vaticano II, quando faleceu, em 1965. Emérico da Gama, um editor apaixonado pelo ofício e autêntico artesão das letras, caprichou na qualidade da edição. A multissecular História da Igreja, intimamente relacionada com a História da civilização, é um banho de cultura e um magnífico prazer intelectual.

Los Contenidos de los Medios de Comunicación – Calidad, Rentabilidad y Competencia (Deusto, Barcelona) trata-se de interessante livro do professor Alfonso Sánchez-Tabernero, especialista em empresa informativa e vice-reitor da Universidade de Navarra. A quem acredita que o sucesso das empresas de comunicação depende de sua capacidade de dar ao público o que ele quer (ou imagina que quer) Tabernero propõe uma reflexão: quem só vai atrás de supostas demandas do mercado pode conseguir sucesso imediato, mas corre o risco de perder prestígio a longo prazo. Um belo mapeamento do negócio informativo.

A todos, boa leitura, e aos que viajam, boas férias!

Carlos Alberto Di Franco

Fonte: O Estado de S.Paulo

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