Os aloprados

Se não estou em erro, nas eleições de 2006, ocorreu um fato inédito, a negociação de “dossiê” supostamente comprometedor de um candidato ao governo de São Paulo. Segundo informações da polícia divulgadas pela imprensa, a peça em referência fora elaborada por dois sedizentes empresários estabelecidos em Cuiabá e oferecida ao “então chefe do Grupo de Informações do PT, Jorge Lorenzetti”, que, por sua vez, credenciou dois militantes para examinar os documentos oferecidos e encaminhar a negociação; parece que tudo se processou nesse sentido, uma vez que, já em São Paulo, no Hotel Ibis Aeroporto, reuniram-se vendedores e compradores, estes levando consigo o preço avençado de R$ 1.700.000 – um milhão e setecentos mil reais, quando, “na madrugada de 15 de setembro”, no mencionado hotel, a presença da Polícia Federal causou a dispersão da reunião, restando no local a massa de dinheiro destinada ao pagamento do “dossiê”.

O fato, por sua evidente gravidade, chegou ao conhecimento do então presidente da República, Luiz Inácio da Silva, o qual minimizou o caso e como se fosse de somenos disse que era coisa de “aloprados”. Recorrendo a esse vocábulo da gíria que tem, entre outros, o sentido de amalucado ou meio irresponsável… nisso ficou, e o vocábulo presidencial correu mundo. E, por incrível que possa parecer, não se falou mais no assunto e em branca nuvem se passaram seis anos! Os aloprados marcaram presença na cidade das letras.

Passados seis anos, o caso voltou à tona. Ainda, pela imprensa, se ficou a saber que o Ministério Público Federal oferecera denúncia contra nove aloprados compradores e não sei quantos vendedores do “dossiê”, e o juiz competente da 7ª Vara Criminal da Justiça Federal do Estado de Mato Grosso recebeu a denúncia.

Este o resumo dos dados, aliás, já divulgados, que dão ideia da insigne gravidade registrada entre nós e só depois de seis anos ressuscita do túmulo em que jazia, podendo comprometer o processo partidário e parlamentar e, em consequência a representação popular, envenenando a higidez dos poderes Executivo e Legislativo. Esse o aspecto, sobre todos, que a mim mais impressiona. A demora, seis anos, a despeito da objetividade dos fatos, foi mais que exagerada e evidentemente nociva à decência institucional. De outro lado, quem recorre a esse expediente para ter uma vantagem eleitoral, uma vez eleito, terá escrúpulo em cometer uma ilicitude ainda que graúda? Vale lembrar que o então candidato, que seria o beneficiário deste expediente, é hoje o ministro da Educação. Quer dizer, essa prática, tolerada por ser coisa de aloprados, vicia e contamina o exercício da política, que há de ser limpa e nobre ou não será política. Se os aloprados, na designação presidencial, possuem a habilidade de juntar R$ 1,7 milhão num repente, não devem ser tão aloprados como disse o passado chefe do governo. Com efeito, o fato de terem abandonado no hotel a dinheirama levada para pagamento do “dossiê”, está a mostrar que só podem ser afeitos a dispor de somas fartas, ou os aloprados de aloprados não têm nada… O fato é lamentável sob todos os aspectos e tanto mais surpreendente quando o episódio teve como cenário o “Partido dos Trabalhadores”, e o trabalhador sabe o que custa de trabalho, zelo, competência profissional e dedicação para embolsar o seu salário, honradamente havido.

Fonte: Zero Hora, 25/06/2012

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