O demônio favorito de Arnaldo Jabor

Comparado a Jabor, Bush é Flaubert. Comparado a Lula, Bush é Shakespeare. Comparado a Obama, o queridinho de Jabor, Bush é… Bom, Bush é alguém de quem a gente conhece as notas, a história e o país de origem.

Arnaldo Jabor, o rapper do colunismo, igualou Lula e George W. Bush. Ponto em comum: o orgulho da ignorância. Diz o rapper, aparentemente em causa própria:

Nunca a estupidez fez tanto sucesso. Forrest Gump, o herói idiota do filme, foi o precursor; Bush seguiu-o e se orgulhava de sua ignorância. Uma vez em Yale, ele disse: “Eu sou a prova de que os maus estudantes podem ser presidentes dos USA.” E nosso Lula que tem títulos de doutor ‘honoris causa’, se gabando de não ter lido nada?

Vou deixar Forrest Gump fora dessa. De obra de ficção, basta o texto de Jabor. Também vou privar o leitor dos demais parágrafos: aquele papo jaboriano de inteligência é isso, burrice é aquilo, caretice é aquilo outro. A Rita Lee, que musique.

Em 2001, quatro meses após sua posse, Bush foi homenageado na universidade de Yale, na qual se formara em História, em 1968. Isso mesmo: em História. Em seu discurso, ele parabenizou os alunos daquele ano e, antes de contar que estudou muito, jogou muito e fez amigos para a vida inteira por lá, falou, na verdade, assim:

To those of you who received honors, awards, and distinctions, I say, well done. And to the C students I say, you, too, can be President of the United States. [Laughter]

[Tradução livre: “Para aqueles de vocês que receberam honrarias, prêmios e distinções, eu digo: muito bem. E para os estudantes nota C, eu digo: vocês também podem ser presidente dos Estados Unidos. (Risos)”] 

Bush fez uma piada. Boa, inclusive. E esta é apenas uma das muitas presentes naquele divertido discurso. Se Jabor quiser fazer uma antologia bushiana de “orgulho da ignorância”, pode incluir a dos sofás de couro na sala de leitura da biblioteca; a do acordo subentendido com seu amigo Dick Brodhead para que este não lesse alto e ele, por sua vez, não roncasse; a do professor que lhe dizia para – em vez de fazer curso de haicais japoneses – focar no inglês; a de que muitos críticos lhe dizem isso até hoje; a de que ele não comete gafes, mas sim se expressa ainda com as formas e os ritmos verbais dos haicais japoneses; a de que tudo que ele aprendeu sobre a língua falada, é bom que o mundo saiba: ele aprendeu em Yale; a do professor Blum, que declarou ao New York Times não ter a mais mínima lembrança dele como aluno; ou ainda, caso Jabor consiga adaptar aos seus propósitos, a de que quem se forma em Yale vira presidente, como ele, e quem abandona no meio vira vice, como Dick Cheney.

Eis o senso de humor de Bush, herdado de seu pai, George H. W. Bush, que além de contar piadas aos filhos desde cedo, foi também, quando presidente, o criador do Prêmio Scowcroft (tributo ao Assessor de Segurança Nacional, Brent Scowcroft) para homenagear os membros de sua equipe que caíssem no sono durante as reuniões.

(Ok. Estou humanizando demais o demônio favorito de Jabor e da imprensa brasileira, bode expiatório de todos os males do mundo. Volto ao ponto.)

Equiparar a autoironia de Bush diante de uma plateia de estudantes, ao lembrar de seus tempos universitários em uma instituição tradicional, onde ainda por cima se formou em História, e o desprezo que Lula sempre demonstrou pela leitura e pelo conhecimento, gabando-se (“gambando-se”, diria Lula) de sua falta de estudos e sua incultura geral, é uma dessas coisas que só mentes iluminadas como a de Arnaldo Jabor fazem por você.

É como se reconhecer ter sido um “mau estudante” (e Bush, na verdade, foi mediano, acumulando uma nota 77 em seus três primeiros anos, quando o grau era numérico) fosse o mesmo que vangloriar-se de jamais ter se mexido para sair da ignorância. É como se a educação formal, ironizada até por Albert Einstein, fosse o único alimento para a inteligência. É quase como se Albert Einstein também se orgulhasse de ser um ignorante.

Mas eu entendo Jabor. Para um esquerdista fiel às escolhas ideológicas de sua juventude, é por demais constrangedor apontar a estupidez do líder da esquerda brasileira sem dizer que a direita também é boboca. É preciso bater nos dois lados, com a ladainha de que “o país não pode ser dividido em ‘esquerda e direita’”. Claro que não pode. Se houvesse direita política no Brasil de hoje, o próprio Jabor não precisaria recorrer à direita americana para compor seus raps contra tudo, todos e coisa nenhuma.

Bush nunca teve orgulho de sua suposta ignorância. Teve apenas consciência de suas limitações acadêmicas como aluno de graduação e a sensatez de mostrar a recém-formados que as notas na faculdade não seriam determinantes para a realização de seus sonhos, ainda que seus sonhos fossem ser “presidente dos USA”, como diria Jabor. Até porque ele mesmo saiu de Yale sem um plano definido de carreira, e acabaria escolhendo a Harvard Business School, onde foi aceito para fazer seu MBA, tornando-se mais tarde o primeiro presidente americano a ter esse título, impensável para Lula. E ainda saiu de lá procurando novos mentores para orientá-lo em seu ímpeto empresarial, sabendo que faltava muito a aprender.

A mentalidade de Bush é o oposto da brasileira, tão bem descrita por Lima Barreto. Bush não despreza, como Lula, o conhecimento. Ele não dá é muita bola para títulos, diplomas e honrarias, mesmo tendo os seus. Embora grato a Yale, que o tornou um “homem melhor”, a principal lição que uma faculdade pode dar, segundo ele, é que essas coisas estão longe de ser a medida da vida. “O que mais importa são (…) a consideração que você demonstra pelos outros e o modo como utiliza os dons que recebe”. “O que fica da faculdade é uma parte da sua educação da qual você quase nunca se dá conta na época. São as expectativas e os exemplos em torno de você, os ideais em que você acredita, e os amigos que você faz”.

Sim: eu adoro a obra literária de George W. Bush. Comparado a Jabor, Bush é Flaubert. Comparado a Lula, Bush é Shakespeare. Comparado a Obama, o queridinho de Jabor, Bush é… Bom, Bush é alguém de quem a gente conhece as notas, a história e o país de origem. Estou até pensando em traduzir seu livro “Decision Points”, que Jabor e Lula decerto nunca lerão. A cada vez que o colunista do Globo demonizá-lo com suas analogias tortas, vou humanizá-lo com meus haicais japoneses. Das lembranças do campus à guerra ao terror, passando pela “tortura” nas bases da CIA, tenho muitas histórias do aluno C para contar.

Para aqueles de vocês que já leem o Mídia Sem Máscara e o Blog do Pim, eu digo: muito bem. E para os brasileiros manipulados pelo rap da imprensa, eu digo: vocês também podem se informar melhor.

****

Nota de rodapé 1 (sobre o caso Cachoeira): Se repórter investigativo (como Policarpo Jr., da Veja) não pode falar com bandido, Tim Lopes, caso sobrevivesse, também seria réu de CPI?

Nota de rodapé 2: Quando o país bater o recorde de adultos sem trabalhar (88 milhões do total de 200 milhões), faça como Barack Obama: fale de casamento gay.

FELIPE MOURA BRASIL

http://felipemourabrasil.blogspot.com.br/

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