Fumacinha bem localizada

O efeito dominó em curso na área de infraestrutura do governo federal tem origem em um aparelho que ali opera desde 2005. Coisa tão antiga quanto feia. Atravessa três mandatos presidenciais consecutivos: o primeiro de Lula, o segundo de Lula com Dilma de gestora e o mandato de Dilma.

Há muita semelhança entre os dias que correm e aqueles que, desde meados de 2005, fluem, na batida do relógio, para o sorvedouro das prescrições e impunidades. “En aquel entonces”, como se diz lá em Santana do Livramento, era comum ouvir-se das lideranças petistas entrevistadas algo que pessoalmente, desde muito antes, eu já esgarçara as cordas vocais de repetir: esse nosso sistema político é corrupto e corruptor. O maior culpado pelas desonestidades no setor público nacional é o sistema que as proporciona e estimula.

Durante aqueles tumultuados meses, enquanto Lula se agarrava nas beiradas da sua popularidade e adoçava a boca da base parlamentar para não escorrer rampa abaixo do Palácio do Planalto, deputados e dirigentes do Partido dos Trabalhadores repetiam, em debates dos quais participei, essa mesma frase: “O sistema é o causador principal desses males”. Dado que carrego comigo onde quer que eu vá, quase como se fosse uma mochila, a convicção de que nosso modelo institucional é ficha-suja, imprestável, saber que o PT passava a partilhar o mesmo entendimento acendia em mim a esperança de que nos avizinhávamos de uma boa reforma. Finalmente, presumia eu, seis anos atrás, um partido grande, com forte disciplina interna, estava aderindo à minha tese. Qual o quê! Foi só o assunto mensalão cair em desuso para que a ideia de uma reforma institucional que separe Estado, governo e administração, atribuindo a função governo à maioria parlamentar, fosse metralhada e sepultada na vala comum dos esquecimentos. Aproveitadores não querem nem ouvir falar nisso.

De todo aquele farisaísmo e de quanto veio a seguir, ficou-me a imagem símbolo: Lula, em Paris, nos jardins da residência Marigny, concedendo entrevista exclusiva a uma jornalista brasileira sediada na França, e atribuindo o mensalão a uma operação de caixa dois. Tornava-se réu confesso, o ex-presidente, a partir daquele dia 15 de julho de 2005: “O PT fez do ponto de vista eleitoral o que é feito no Brasil sistematicamente”, declarou o presidente da República. E apesar desse reconhecimento, foi excluído do processo.

Nos anos seguintes, jamais faltou ao noticiário um escandalozinho semanal capaz, por si só, de transformar Fernando Collor num modelo de virtudes. Geraram-se fortunas à volta de Lula. A iniciar pela do próprio filho. Mas o PT sempre cuidou de proteger seu santo padroeiro com o manto blindado de todas as graças e fervores. De tudo que aconteceu em seu governo, só das coisas boas Lula teve responsabilidades absolutas e méritos compartilhados com Dilma. Nenhuma das outras era com ele.

Curiosamente, tal benevolência só vale para os governos do PT porque não pode incidir miséria maior sobre qualquer governante com oposição petista do que um sinalzinho de fumaça na prateleira do almoxarifado de qualquer secretaria sob seu comando. Basta isso para que o PT se apresente com lança-chamas e tonéis de gasolina para incendiar o governo inteiro e seu titular na fogueira das suspeitas e das CPIs. Aí não tem sistema culpado nem presunção de inocência. Aconteceu no governo, a culpa é do governante.

Pois bem, parece bastante óbvio que o efeito dominó em curso na área de infraestrutura do governo federal tem origem em um aparelho que ali opera desde 2005. Coisa tão antiga quanto feia. Atravessa três mandatos presidenciais consecutivos: o primeiro de Lula, o segundo de Lula com Dilma de gestora e o mandato de Dilma. Diante de tais fatos, o que começa a dizer o PT? Que se trata de uma fumacinha bem localizada e que a culpa é do sistema.

PERCIVAL PUGGINAMídia sem Máscara

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