Deter o PLC 122 é batalha decisiva na defesa da família

Em 24 de maio, as bancadas evangélicas e católicas do Congresso Nacional pressionaram o governo federal e ameaçaram abrir a CPI para investigar o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, de enriquecimento ilícito e tráfico de influência. Diante disso, a presidente Dilma Roussef suspendeu a distribuição do polêmico Kit “Escola Sem Homofobia” na rede pública de ensino do País. Em sua fala[1], quando questionada pela imprensa, a presidente pareceu reviver os momentos mais tensos da campanha eleitoral de 2010, acuada pela pauta “dos valores” trazida pela sociedade, e que tanto a assombrou especialmente na transição do 1º e 2º turno[2].

Ao conversar com os jornalistas, Dilma Roussef disse que não irá permitir nenhum órgão do governo fazer “propaganda de opções sexuais”. E mais: “Não podemos interferir na vida privada das pessoas!” Chegou a afirmar que não assistiu aos vídeos polêmicos de doutrinação homossexual, tendo visto apenas alguma coisa do que foi apresentado na televisão. E concluiu dizendo: “Não concordo com o Kit”, mas “nós lutamos contra a homofobia.” Foi uma fala mais uma vez contraditória, sem convicção, muito imediatista, fala para apagar incêndio, sem coerência com o propósito do governo implantar o PNDH3 no País. O ex-presidente Lula teve de emergir para os holofotes midiáticos, repentinamente para vir em socorro de sua apadrinhada e pedir aos senadores da base governista que poupem Palocci de uma CPI. O governo perdeu vários aliados e se desgastou muito com a votação do Código Florestal. A presidente então recuou, como fez na campanha eleitoral, para evitar um desgaste ainda maior.

Os episódios recentes demonstraram que é possível os cristãos brasileiros manterem-se firme na defesa dos princípios e valores que buscam salvaguardar a dignidade da pessoa humana e a estrutura natural da família, seriamente ameaçadas pelo ideário do PNDH3, que o governo está disposto a tornar política de Estado, num processo em que o laicismo se torna “uma ideologia irreligiosa ou anti-religiosa”[3], para também reforçar a cultura anti-cristã em curso. Os deputados e senadores das bancadas evangélicas e católicas, pressionaram e obtiveram um efeito considerável, neste momento crucial, e se posicionaram inclusive levando a população às ruas, como na Marcha contra o PLC 122, promovida em 1º de junho, em Brasília.[4]

Deter o PLC 122 é assegurar a liberdade de expressão e religiosa no Brasil, do contrário, aqueles que hoje são minoria vão se impor ainda mais, com mais insolência, pois querem garantir não apenas a tolerância, mas forçar cada vez mais a adesão ao homossexualismo, criando mecanismos, alguns sutis, outros mais ousados, para que um número crescente especialmente de jovens aceitem o homossexualismo, mas – o que é mais grave – sejam estimulados a isso, daí a estratégia do KIT, para efetivar a doutrinação homossexual nas escolas, com material pago com dinheiro público.

Apologia ao que viola a essência e a natureza da pessoa humana

O fato é que “a batalha contra a família está entre as mais graves batalhas contra o cristianismo, em particular contra os católicos”.[5] Nesse sentido, “a homossexualidade tornou-se uma arma política e o envolvimento dos homossexuais na vida política, para alcançar seus intentos, tornou-se uma prioridade”.[6] E para isso surtir efeito, a médio prazo, faz-se necessário difundir nas escolas a ideologia de gênero, para quebrar as resistências contra a cultura que quer se impor. A educação sexual então está imbuída fortemente desta ideologia contrária à família, com uma visão reducionista da dimensão da pessoa humana. “Ora, existem apenas duas identidades sexuais: masculina e feminina. Não existe identidade homossexual. A homossexualidade pertence ao grupo das tendências sexuais, que são numerosas e variadas no psiquismo humano”[7] e “a sua gênese psíquica continua amplamente inexplicada”.[8] É certo que permanecem interrogações sobre as causas profundas de tais tendências, mas há sinais evidentes de que institucionalizá-las é desconhecer com mais profundidade a essência e a natureza da pessoa humana, e mais ainda: agravar os fatores da violência contra o ser humano, em todos os aspectos.

A crise da identidade em nosso tempo se explica “numa sociedade sempre mais anônima”.[9] Daí o grande mal-estar de muitos diante dos apelos na promoção da homossexualidade, pois sabe-se que se trata de um movimento de apologia e não apenas de não discriminação. Apologia a uma condição contrária ao que vai no âmago da maioria das pessoas, uma condição que torna a pessoa estranha de si mesma, nas circunstâncias em que se sente muito mais vulnerável como objeto e não sujeito de uma relação que tende a ser mais perversa e desumana, pois “o indivíduo não pode se socializar e enriquecer o vínculo social senão a partir de sua identidade (de homem e mulher)”.10 Daí também a crise da identidade (que é também a crise dos vínculos, no melhor sentido da expressão religiosa – que visa re-ligare). “Não é pensável que seja possível socializar-se em função de uma tendência sexual, a não ser sob pena fazer regredir e de perverter o vínculo social”.[11] E então, a escola, que deveria complementar, do ponto de vista pedagógico, a integração da pessoa com sua comunidade, passa – com a educação sexual libertária – a desagregar a pessoa, a partir das premissas utilitárias, hedonistas e individualistas. O ideário proposto pelo PNDH3 perverte pois a finalidade social das instituições nascidas para defender a pessoa daquilo que a despessoaliza. Com uma educação sexual assim, a escola se torna um lugar perigoso, um barril de pólvora que certamente irá explodir com danos sociais inimagináveis.

“Ideologia de gênero”: o pano de fundo cultural do PNDH3

Da mesma forma que a obsessão da supremacia racial motivou a mais dolorosa experiência de dominação política com o nazismo, o afã da sociedade anarco-individualista de transgressão e libertação dos condicionantes biológicos da pessoa, pode nos levar a outras mais terríveis situações de desespero, que muitos ainda ignoram, e cujas conseqüências já estão visíveis em nosso meio, bastante conturbado pela influência do feminismo radical.

Na “perspectiva de gênero”[12], “a realidade da natureza incomoda, perturba e, assim, deve desaparecer”.[13] Com isso, se espera um tempo novo, em que homem e mulher não sejam mais condicionados por “papéis culturais” e vivam inteiramente livres para usufruir uma vida sem nenhuma espécie de opressão. Tal a promessa da nova ideologia, como as do passado, que fracassaram justamente ao apresentar um topos fora da realidade humana. “’Quando o nacional-socialismo tiver reinado por bastante tempo’, declarou Hitler certa vez, após o jantar, ‘não será mais concebível uma forma de vida diferente da nossa’”.[14] O anarco-individualismo do feminismo radical é, portanto, a nova manifestação de um idealismo que mais uma vez quer arrastar a humanidade às piores patologias políticas, pois a “crueza sexual” de tal ideologia “vive nos grandes sistemas especulativos do idealismo”.[15] Uma ideologia que quer desenraizar a pessoa daquilo que a constitui como ser humano, desterritorializá-la da instalação natural da família, imprescindível à sua realização como pessoa, inseri-la em ambientes hostis em que cada vez mais fica difícil se identificar e, portanto, torná-la mais fragilizada e perdida de sua própria realidade como ser humano.

Doutrinação homossexual como estratégia para o desenraizamento cristão

Depois de alguns “anos de preparação, de clarificação ideológica e de experiências táticas”[16], a exemplo do que disse Joachim Fest sobre Hitler, percebemos muito nitidamente aspectos da proximidade metodológica do totalitarismo nazista com o que busca os promotores do PNDH3, com uma política de Estado que tem como objetivo o profundo desenraizamento cristão, como realmente nunca houve na história do País. Para isso, a doutrinação homossexual nas escolas faz parte desta tática, que funcionou para consolidar movimentos totalitários políticos do passado e quer agora atualizar a estratégia de alcançar especialmente a juventude para a adesão a um idealismo de evasão da realidade, com conseqüências altamente imprevisíveis para toda a sociedade.

A doutrinação homossexual nas escolas quer reforçar a idéia de que “a inversão é uma coisa tão natural”[17], e de que os papéis sexuais são apenas construções culturais do qual é preciso se libertar, para vivenciar uma felicidade euforizante e fugaz, daquela intensidade hedonista exigida pela sociedade de consumo. Trata-se também da antiquíssima estratégia de uma lógica de poder anti-natalista, quando “o legislador (…) obtem baixa taxa de natalidade, mantendo homens e mulheres separados e instituindo relações sexuais entre homens”.[18]

“Estamos outra vez perante um novo começo”[19]

Na contra-mão deste rolo compressor ideológico, mais uma vez, os cristãos (evangélicos e católicos) são chamados a fazer contraponto, mesmo “quando já não há um ambiente cristão na sociedade”[20], e muitas vezes os cristãos mais conscientes se sentirem “a Igreja de uma minoria”.[21] “É hora de união de todos os cristãos, deixando de lado o que nos divide, e deixando de nos ferirmos mutuamente, para defender a Lei santa de Deus.”[22]

Na afirmação de princípios e valores cristãos, numa época como a nossa, de tão grandes apreensões e promissões, o discernimento nos leva à luz de Cristo, pois Ele “é sempre nosso contemporâneo”.[23] Somos chamados novamente a dar testemunho da resposta cristã aos complexos desafios e aos impasses agudos da atualidade. A obsessão prometéica de uma felicidade que vem da rebeldia, permanece até hoje, como uma terrível tentação. “E a tentativa de ultrapassar a condição humana exclusivamente por meio do homem fica, em última análise, votada seja à ineficácia, seja à ilusão”.[24] A história comprova isso. Daí que há esperança, nos tempos convulsivos em que vivemos, de que há hoje “novas esperanças, novas possibilidades de expressão cristã”[25], sabendo que “a Paixão de Jesus é um acontecimento sempre contemporâneo e que deve fazer parte da ação no presente”[26], pois “o Senhor não fala do passado, mas do presente, nos fala hoje, nos dá a luz e nos ensina o caminho da vida”.[27] Nesse sentido, especialmente os leigos cristãos no campo legislativo são chamados a produzir “novas e vigorosas formas de vida do que é cristão”.[28] Por isso que empunhar a bandeira da família e da defesa da vida, desde a concepção, é atualizar a resposta cristã às forças adversas que querem minar na base a força unitiva da família.

“Estamos outra vez perante um novo começo”.[29] O século 21, já na segunda década, se vê diante da pauta de valores que certamente norteará o debate e as grandes decisões do nosso tempo. O cristianismo continuará o caminho da vida, e certamente vencerá, como venceu tantos males do passado. “É precisamente uma era de um cristianismo quantitativamente reduzido que pode levar a uma nova vivacidade desse cristianismo mais consciente”.[30] De modo concreto, no aqui e agora, na dimensão da realidade penúltima, a defesa da estrutura natural da família não é uma luta em vão, mas decisiva pelo bem integral da pessoa humana, para assegurar a salvação de todos, na realidade última.

Prof. Hermes Rodrigues Nery é coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté. Professor de Bioética do Instituto Teológico da Diocese de Campo Limpo (SP).

Bibliografia:

  1. (http://noticias.uol.com.br/ultnot/multi/2011/05/26/04024D9C3670C4B11326.jhtm?nao-aceito-propaganda-de-opcoes-sexuais-afirma-dilma-04024D9C3670C4B11326
  2. http://blogs.estadao.com.br/vox-publica/2010/10/01/corrida-de-dilma-para-recuperar-voto-evangelico-marca-reta-final-da-campanha-presidencial/;http://www1.folha.uol.com.br/poder/806590-dilma-faz-reuniao-com-evangelicos-e-catolicos-para-desmentir-boatos.shtml
  3. Valerio Zanone, Dicionário de Política, (org. Por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino), Laicismo, p. 670; Editora Universidade de Brasília, Vol. 2, 4ª edição)
  4. (http://juliosevero.blogspot.com/2011/06/manifestacao-contra-plc-122-sofre.html)
  5. Dorotas Kornas-Biela, Direitos da Criança, Violência e Exploração Sexual, Lexicon – termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões éticas, Pontifício Conselho para a Família, p. 219; Edições CNBB, 2007
  6. Tony Anatrella, Homossexualidade e Homofobia, Lexicon – termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões éticas, Pontifício Conselho para a Família, p. 476; Edições CNBB, 2007
  7. Tony Anatrella, Homossexualidade e Homofobia, Lexicon – termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões éticas, Pontifício Conselho para a Família, p. 474; Edições CNBB, 2007
  8. Catecismo da Igreja Católica, 2357, p. 531; Editora Vozes, Edições Paulinas, Edições Loyola, Editora Ave Maria, 2ª edição, 1993
  9. Marie Thèrese Hermange, Direitos das Crianças, Lexicon – termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões éticas, Pontifício Conselho para a Família, p. 243; Edições CNBB, 2007
  10. Tony Anatrella, Homossexualidade e Homofobia, Lexicon – termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões éticas, Pontifício Conselho para a Família, p. 474; Edições CNBB, 2007
  11. Tony Anatrella, Homossexualidade e Homofobia, Lexicon – termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões éticas, Pontifício Conselho para a Família, p. 474; Edições CNBB, 2007
  12. Oscar Alzamora Revoredo, Ideologia de Gênero: Perigos e Alcance, Lexicon – termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões éticas, Pontifício Conselho para a Família, p. 496; Edições CNBB, 2007
  13. Oscar Alzamora Revoredo, Ideologia de Gênero: Perigos e Alcance, Lexicon – termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões éticas, Pontifício Conselho para a Família, p. 496; Edições CNBB, 2007
  14. Mark Mazower, Continente Sombrio – A Europa no século XX, p. 150, Companhia das Letras, 2001
  15. Theodor W. Adorno, Minima Moralia – Reflexões a partir da vida danificada, p. 77, Editora Ática, 1992.
  16. Joachim C. Fest, Hitler, p. 605, Editora Nova Fronteira, 1976
  17. Sigmund Freud, Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, p. 26, Edição Livros do Brasil Lisboa
  18. Aristóteles, Política, Coleção Os Pensadores, p. 202, Editora Nova Cultural Ltda, 1999.
  19. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio, p. 212, Ed. Imago, 1997
  20. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio, p. 209, Ed. Imago, 1997
  21. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio, p. 209, Ed. Imago, 1997
  22. http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2011/06/02/cristaos-unidos-jamais-serao-vencidos/
  23. Joseph Ratzinger/Bento XVI, Os Apóstolos e os primeiros discípulos de Cristo, p. 22, Editora Planeta do Brasil Ltda, 2010
  24. Jacques Maritain, A Filosofia Moral – Exame histórico e crítico dos grandes sistemas, trad. de Alceu Amoroso Lima, p. 497, Livraria Agir Editora, 1973
  25. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio, p. 212, Ed. Imago, 1997
  26. Jacques Le Goff, São Luís, p. 148, Editora Record, 2002
  27. Joseph Ratzinger/Bento XVI, Os Apóstolos e os primeiros discípulos de Cristo, p. 22, Editora Planeta do Brasil Ltda, 2010
  28. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio, p. 212, Ed. Imago, 1997
  29. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio, p. 212, Ed. Imago, 1997
  30. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio, p. 212, Ed. Imago, 1997
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